Capítulo 1
Um quadro pintado com tintas retrógadas.
“A ignorância faz do homem um leão recuado".
A chuva tamborilava no pequeno vidro cinzento e burlado da janela do sótão, os pingos d’água dançavam dimanando até a moldura da vidraça como ordenava o vento.
Então Gustave acordou com uma enorme dor de cabeça, entre as caixas empoeiradas de madeira gastas pelo tempo, escutou uma voz ao longe como se viesse de dois quarteirões de distância.
- Você está bem? A voz levemente rouca insistia na questão.
Não. Acho que não estou bem - Pensou Gustave. Deixando seu modo decúbito para ergue-se como um macaco velho e corcunda, sobrepondo sua mão esquerda, a qual tinha um bronzeamento de uma pulseira em seu pulso, e pondo-a na cabeça sem cabelos. Ele ouvia um saxofone. Uma música peculiar e triste. Ainda estou drogado.
Abriu os olhos com repetidas piscadelas que denunciavam o desconforto visual, mesmo estando num lugar de luz ambiente. Ser um toxicodependente de morfina não me faz muito bem e me fez acordar num sótão – Com sua crítica mordaz para si mesmo, comichou sua orelha esquerda com sua mão que ainda estava erguida, seguido de uma queda preguiçosa de seu braço em uma das caixas, servindo sua mesma mão de encosto.
- Gustave. Você está bem?
A voz parecia mais nítida e reconhecível pelos seus ouvidos internos, esta voz que lhe causou um susto, fê-lo também arrepiar e esquecer a música que vibrava na sua cabeça, o arrepio, o qual não o deixou maior como seus antepassados que usavam o efeito do hormônio adrenalina para parecerem mais bruscos, era consequência do que estava por sentir.
Havia algo que parecia perturbador prestes á ser reconhecido no seu hipocampo, mas não era nada dissociativo, ou pelo menos, pouco. Era um sentimento que ficara mais forte logo após uma repentina olhada nas palmas de suas mãos, era um sentimento de braços e abraços a uma emoção angustiante, esta que era quase invisível aos olhares de seu avô, parecia ter fragmentado seu ego.
- Vô? Pôs-se de pé erguido – Como a Vênus de Milo, porém, a estátua demostrava mais determinação com seu rosto quebradiço e velho.
Aquele velho caminhou com uma muleta sob seu braço direito, servindo como uma terceira perna, que amarrotava um pedaço da camisa abaixo das axilas, levantando poucos centímetros da mesma, no mesmo lado, mostrando assim o começo de uma cicatriz em sua barriga, a qual era repleta de pelos grisalhos.
Com uma calma que parecia por um momento despencar, o seu avô Achille Martini, nome posto em homenagem ao guerreiro Akiles por seu próprio pai, acendeu a lâmpada através do interruptor de cor marfim, marfim como os caninos de uma morsa, e da mesma tonalidade de todas as paredes daquele sótão.
O interruptor ficava próximo onde estava Gustave, quando a luz tocou todas as superfícies expostas a mesma, o rosto de seu avô, Achille, estava marcado de cicatrizes.
- Afaste-se de mim, assassino! – Gustave ordenou-lhe em um tom rouco e tênue, com tamanha a certeza de que a mágoa era perceptível em seu próprio rosto e que tal emoção não foi branda há algum tempo, deixando assim, resquícios quase perpétuos.
-Escute filho. – Logo após a sua mão esquerda servir de cabimento para ligar a lâmpada, serviu também como um sinal de espera em direção a Gustave.
Gustave o encarou como o inimigo visando à consecução de um objetivo, o qual era parar sua ira, satisfazendo-a, essa com grande poder de estimular os ímpetos maléficos de uma criatura humana.
- Filho. Você precisa me escutar. Eu sei que deve ser muito difícil, mas escute. Em um tom de súplica, Achille pediu-lhe.
- Não quero escutar nada de que venha de você. – Repugnou Gustave. Tentando conter sua cabeça milimetricamente trêmula.
- Escute Gustave. Você se tornou uma pessoa coberta de vingança e ódio, e hoje só é o fruto do que você plantou.
Gustave apontou para a tez de Achille – Espero que não tenha sido eu que tenha feito esses ferimentos. Pois me arrependeria muito, de não tê-lo matado.
- Deixe-me explicá-lo. – Na mesma pose estava Achille, como um animal diante de seu predador.
- Me explicar o quê? Que você matou Adeline? Adeline Aneci. Lembra-se desse nome, seu velho egoísta e imundo? – As minúsculas gotas de saliva ultrapassavam a barreira das questões formadas por gritos ameaçadores, que assustavam tanto como sua mão erguida e juíza.
No primeiro grito de seu neto, Achille sabia que precisava de mais paciência. Expeliu o ar dos pulmões.
- Escute. Tem algo que você precisa saber. Eu sabia que você um dia viria. E estou aqui para responder todas as suas dúvidas. – Insistiu Achille.
Com uma voz solene, como se um animal agressivo se alterasse em uma criança chorosa e humilde, Gustave perguntou-lhe.
- Por que você a matou?
- Eu não a matei. Filho. – Negando com sua cabeça, Achille o respondeu.
O corpo de Gustave parecia ter sido despido da ira, organizando erroneamente o que achava que se lembrava do seu passado com sua esposa. Suas mãos, que pareciam refletir um desespero interno sentimental, estavam querendo arrancar seus últimos fios de cabelo mal cortados. Era mais uma experiência aversiva a sua felicidade e que “feria” também suas glândulas lacrimais, fazendo-lhe derramar malogras lágrimas.
Com uma emoção penosa, Achille, aproximou-se de seu neto, tanto que podia sentir no seu corpo senciente espiritualista, um frio tênue que provocava um desconforto não físico através da temperatura, e sim, mental. – Filho. Você precisa me escutar. – Ainda com sua enrugada mão erguida como uma lança nas mãos de um guerreiro do século VIII na Escandinávia, Achille tentava tocar Gustave que ainda lamentava com sua face encarando o chão antigo, este marcado por tintas secas e apagadas dentre os fios de penumbra das caixas.
O estrondo de um trovão invadia o sótão quebrando o silêncio criado pela quietação dos movimentos vertebrados em contato com outros materiais, e pelos movimentos dos músculos da laringe e das cordas vocais de ambos. Em seguida ouve-se uma pergunta transmitida em sussurros “molhados” na saliva que escorria de uma boca entreaberta e ressecada. A boca de Gustave.
- Por que estou sentindo isso por você, se não foi você que destruiu a minha vida?
- Você deve ter se deparado com algo que fê-lo lembrar de coisas, ou melhor, fê-lo criar coisas que satisfizessem seu sentimento.
O silêncio acordou. Deixando mais uma vez aquele lugar plácido.
- Gustave? – Achille procurou chegar mais perto.
Levantando a cabeça como estivesse com medo de olhar o que estivesse diante dos seus olhos, Gustave finalmente pôs seu crânio erguido com ajuda forjada dos músculos cervicais unidos a sua coluna dolorida, vendo seu avô pôr seu antebraço, antes erguido, na borda da janela.
Um brilho refletido daquela luz quase sem vida despontava das lágrimas no rosto de Gustave, fazendo Achille compungir-se como todas as suas últimas noites irrisórias, quando pintava aqueles quadros.
- O que o faz achar que fui eu? – Perguntou Achille. Querendo uma satisfação.
Gustave olhou novamente sua palma da mão e mostrou-o de uma forma rápida, como se respondesse claramente a pergunta que foi feita.
O velho Achille tinha uma visão muito boa, mas sentiu dificuldade vinda das pequenas bolsas membranosas embutidas nas órbitas oculares. Porém quando a mensagem tatuada de forma grotesca foi revelada sob aquela luz de taverna, o seu peito foi recebido com um golpe súbito de tristeza e vontade de não existir.
Gustave descobriu seus dotes para física e cálculos matemáticos quando ainda era criança, gostava muito de charadas e perguntas sem respostas. Achava que poderia responder muitas delas com a sua ambição e sua inteligência.
“O sangue que corre por essas veias, é um sangue que também pertence a um assassino”.
- Então. O que me diz? – Ironizou Gustave.
- Você desse modo não posso dizer nada. – Retrucou de forma clara, Achille.
- Por que posso me vingar? – De forma fria outra pergunta foi feita.
- Não. – Tênue como a chuva se tornou depois da tempestade, Achille respondeu. – Não fui eu Gustave.
-Você quer dizer então que fui eu? – Gritou Gustave. Com todos os seus músculos preparados para realizar algo que seu sentimento transformou em uma possível realidade imutável.
- Não. Você precisa saber toda a história. – Achille, perdido em um tom suplicante e sem paciência, contestou a Gustave.
- Se você faz essa questão. Então me conte. Sem mentiras. – Disse Gustave, diminuindo sua voz e tentando controlar sua cabeça trêmula marcada por sensações extremamente bruscas.
Achille andou um pouco em direção a um quadro que estava dependurado e empoeirado, como tantos naquela parede marfim. Retirou o mesmo, revelando uma espécie de cofre entreaberto.
Gustave escoltava seu avô, Achille, com os olhos, mas como um disparo, Gustave pôs sua visão em direção à janela, tentando assim, responder uma questão em sua mente. – É noite?
Nesse momento, Achille tirou de dentro do mesmo cofre, um diário, e no meio do caminho de volta, sentou-se em uma das caixas. Fazendo essa estalar, denunciando que as madeiras que a deram origem estavam podres.
Com aquele estalo pujante, Gustave retornou a olhar para seu avô.
- O que é isso? – Perguntou Gustave.
Achille logo após o estalo imprevisto pôs-se de pé rapidamente, pondo também sua muleta sob sua axila direita, servindo assim, mais uma vez, como um suporte auxiliar para sua defeituosa extremidade inferior.
Olhando para a caixa como se a quisesse chutar, Achille respondeu ironicamente a pergunta feita há segundos.
- Uma caixa podre.
Nesse instante Gustave resgatou uma lembrança, montada em poucos segundos como um quebra-cabeça, percebendo, assim, que aquele era seu diário nas mãos de seu avô. Então, andou bruscamente em direção a Achille, cujo estava prestes a sentar em outra caixa que parecia mais segura para servir de assento.
As penumbras de tudo que a luz não raiava, dançavam numa melodia errônea, ríspida como os anseios que torturavam Gustave habitualmente, deixando nele sequelas indeléveis.
- O que você está fazendo com o meu diário? – Perguntou seguramente, Gustave.
- Você conseguiu se lembrar desse diário? – Achille rebateu com outra questão, formada por várias outras em sua cabeça.
Pasmado com aquela pergunta, procurando a resposta, Gustave tentou desviar-se da mesma. – Talvez eu não tenha lembrado, talvez o meu subconsciente tenha apenas visto a capa do diário pela minha visão periférica.
- Eu me lembro de várias coisas. Dê-me o diário de volta. – Estendendo sua mão esquerda tatuada, molhada de lágrimas e saliva, ele ordenou.
- Então você se lembra do propósito deste diário. – Afirmou Achille, com tamanha a fidúcia de que o que tinha acabado de sair de suas cordas vocais não era exato.
Gustave leu ligeiramente o que estava escrito em letras de forma branca na capa preta do diário:
“Meu diário que guarda as lembranças de um homem sem ontem. Eu, Gustave Alphonse”. – As verdadeiras memórias dos dias que passei estão todas ali.
- Deixe-me vê-lo – Ainda com sua mão estendida, o pediu. Recebendo de uma forma irresoluta de seu avô, o diário.
Gustave abriu rapidamente o próprio, passando página por página – aqui não tem nada – com uma desesperação explícita, e por final, jogou o diário em Achille, agressivamente.
-Você está brincando comigo? – Deu as costas ao seu avô, pondo as mãos na cabeça, caminhando em direção à janela, tentando organizar seus pensamentos que por um momento haveria possibilidade de estarem ilusos. Apoiou os cotovelos da borda da janela, e baixou sua cabeça logo após seus globos oculares responderem uma pergunta arranjada pelo seu intelecto nada mais que duvidoso. – É noite.
Ouviu a voz de Achille citando um verso numa cadência quase inaudível.
Minhas proles noturnas
Caminhem sob a lua
O perpétuo requer seu ouro
Nada além da sua vida nua.
Filha bastarda de Deus
Semente amanhada.
Cria renegada.
Vidas presas em opróbios teus.
Algo meneia o chão
Não é uma fé majestosa
É um litígio de submissão
Diante a uma imagem odiosa.
Como um raio, seu hipocampo mais uma vez foi atingido por palavras que traziam e formavam rapidamente lembranças ambivalentes. Essas trouxeram imagens e vozes céleres, fazendo – lhe, por final, lembrar-se de sua irmã, Ane.
- Ane. Ane escreveu isso. – Asseverou Gustave. Virou-se ligeiramente e foi em direção a Achille.
Ufaaa! muito bom.
ResponderExcluirSem palavras...
Eu gostei. \o
ResponderExcluirEsse é o primeiro cap inteiro?
humrum é sim.
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